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A cidade que não é de ninguém, um retrato do egocentrismo urbano em Moçambique

Em Maputo, como noutras cidades moçambicanas, acumulam-se exemplos de um fenómeno que passa muitas vezes despercebido, mas que molda profundamente a forma como vivemos, o egocentrismo urbano. A imagem de um prédio de três andares onde apenas o segundo piso foi renovado, contrastando com a degradação visível dos outros andares, é mais do que um exemplo isolado de desequilíbrio estético, é um símbolo da falta de coesão, da ausência de espírito comunitário e do desinteresse em resolver problemas que são, na verdade, de todos.

Este tipo de situação repete-se em condomínios, bairros e até zonas comerciais. Cada um cuida do que é “seu”, do que está dentro da sua porta ou do limite do seu muro, mas raramente se estende o cuidado ao que é comum, escadas, fachadas, passeios, espaços verdes, vias de acesso, sistemas de drenagem ou de saneamento. Assim, vemos ruas esburacadas em frente a casas bem cuidadas, muros pintados ao lado de passeios cobertos de lixo, e edifícios modernos ladeados por construções negligenciadas. É como se a cidade não tivesse dono, como se cada um estivesse isolado dentro da sua bolha, esperando que o outro tome a iniciativa de resolver o que claramente exige acção conjunta.

A ausência de planeamento conjunto tem consequências reais. Quando os moradores não se organizam, quando não há comunicação entre vizinhos, quando os espaços comuns não são mantidos, o ambiente degrada-se. O que começa com uma janela suja ou uma pintura desbotada transforma-se, aos poucos, em estruturas perigosas, infiltrações que comprometem a estabilidade de um prédio inteiro, ou ruas intransitáveis que afectam todos os que por ali circulam. A negligência deixa de ser apenas visual e transforma-se em risco, e, pior ainda, em desresponsabilização coletiva. Ninguém se sente responsável, ninguém se sente parte, ninguém se sente obrigado a agir.

Este tipo de destruição é muitas vezes involuntária. Ninguém acorda com o objectivo de contribuir para o colapso dos espaços urbanos. No entanto, ao fecharmo-nos nos nossos interesses individuais, ao ignorarmos o que está para além da nossa propriedade, acabamos por ser cúmplices da deterioração do todo. O prédio, a rua, o bairro, tudo sofre com esta mentalidade fragmentada.

É urgente reconstruir o senso de comunidade. Uma cidade saudável não é feita apenas de bons edifícios, mas de relações entre os seus habitantes. Requer diálogo, compromisso e acção conjunta. Precisamos cultivar o hábito de olhar para o que é comum com o mesmo cuidado com que olhamos para o que é privado. Precisamos de falar uns com os outros, planear em conjunto, decidir em conjunto, investir em conjunto.

A realidade urbana moçambicana pode ser transformada, mas essa mudança não virá de fora. Ela começa com pequenas atitudes, com uma nova forma de pensar, reconhecer que aquilo que é de todos também é nosso. Quando cada cidadão assume a sua parte, a cidade deixa de ser um espaço de abandono e passa a ser um espaço de pertença.

O futuro constrói-se em comunidade.

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